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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

SENSIBILIZE-SE

Há um ano indignava-me pelo Janeiro marcante e inesquecível de 2010, cuja história foi escrita por milhares de mortes num país geograficamente pequeno e desprovido de riquezas materiais, Haiti. E também o nosso “Estado Maravilhoso”, Rio de Janeiro.


Novamente repetiu-se a fúria indomável da “Mãe Natureza”.

Deixo registrado nessas considerações a minha tristeza pelo sofrimento infinito desses inocentes cidadãos do “Estado Maravilhoso”.

É impossível não se sensibilizar com tamanha tragédia. São vidas, iguais a nossa, literalmente soterradas, enterradas, sepultadas. São sonhos soterrados pela terra outrora lavrada pela própria vítima.

A lágrima, a angústia, o soluçar, o desespero, o êxodo, o pânico, a memória, o físico, o vazio, o destruído... Essa enxurrada de palavras maléficas invade como dor incurável, esses corações abalados. Você, caro leitor, coloque-se ao menos uma vez na vida, no lugar dessas vítimas. Imaginem a sofreguidão das famílias, o ciclo de vida interrompido pela força brutal da natureza. Imaginem quão doloroso é tudo isso. Sensibilize-se. Amenize a dor dessas pessoas começando pela sua indignação. Se você é lúcido, caro leitor, tão lúcido que não rasgaria uma nota de cem reais, então mexa o caldeirão de sentimentos bons que é armazenado no seu coração e propague, seja por telepatia, por oração, por cartas, por dinheiro, por alimento, por “dó”... Enfim, SENSIBILIZE-SE.

Também são desejos materiais que foram engolidos. O desejo da “vida melhor” tornou-se a expectativa de um recomeço. A nova televisão que um dia puderam comprar e que hoje não puderam assistir nem à própria tragédia; sofás que fariam adormecer sonhos; brinquedos que fincaram sorrisos no mundo mágico dos pequeninos; tijolos que formaram o doce lar de cada integrante familiar. Enfim, objetos que fizeram parte da história de cada afetado pelo furor da natureza.

As dúvidas surgem de cada sofredor: “... E agora? Agora não sei...”. A incerteza protagoniza os sentimentos e a premonição de cada um deles. Eles perderam a dignidade a partir do momento que já não puderam se despedir daqueles que fizeram história em suas vidas. Aqueles que foram, por motivos que ainda me ferem, sepultados como objetos perdidos, dos quais seus “donos” não mais os reencontrarão.

Encerro esta minha nota de dor com uma mensagem aos meus irmãos Paulistas e Cariocas. Um dia um grande poeta, dono de pseudônimos, chamado Fernando Pessoa, ao final de um de seus escritos, disse: “Pedras no caminho? Guardo todas... um dia vou construir um castelo...”.

Luiz Fernando Guarnieri Passos